Waldir Barreto
Texto escrito para a exposição Sustentação na Pinacoteca Benedicto Calixto, Santos-São Paulo, 2002.
Sustentação
A despeito do termo “instalação”, João Carlos de Souza é, a rigor, um escultor. Todavia, sua escultura não pensa o lugar de matéria no espaço (suas metáforas líricas estão longe da mimese acadêmica) e tampouco a continuidade deste espaço na matéria (sua economia ascética distingue da assepsia minimal). Nas esculturas de João Carlos, o espaço é a matéria.
Matéria ótica, que ele quase não toca. A sala da Pinacoteca Benedicto Calixto onde colocou seu trabalho, ao mesmo tempo em que comporta uma espécie de maquete metafórica da colunata do prédio, não deixa de estar, por assim dizer, vazia. Contudo, nessa escultura penetrável, o vazio não existe.
Esse escultor não cria corpos para serem tocados, mas ambientes que tocam. Neles, existe o espaço, cujos valores positivos de peso, volume e massa são cunhados por golpes precisos de fios de linha dourada. O objeto não é a linha, como pode suspeitar o visitante desatento. O objeto estético é a substância atmosférica que ele esculpe, o cheio espacial que ele enforma. A linha é instrumento.
De um lado, essa imagem escultórica é totalmente mental, mas de outro, a sensação corpórea é presente – de um lado, no sentido impalpável que Lucio Fontana deu ao “ambiente espacial” e, de outro, no sentido concreto que Richard Serra dá à geometria como “atitude espacializante.
Escultor do espaço, João busca o irrepresentável visível, fiel a uma ideia espacial revelada por Paul Cézanne, ampliada por Barnett Newman e dita por Waltécio Caldas: “ver não é, ver é onde”.